O Trabalho e os Dias

Gente é tão louca e no entanto tem sempre razão: quando consegue um dedo já não serve mais quer a mão.

E o problema é tão fácil de perceber: é que gente – gente nasceu pra querer.

– Raul Seixas

Essa fonte inesgotável de desejo, essa vontade insaciável: esse querer sempre mais – é um malicioso castigo divino! Castigo que Zeus aplicou a humanidade por Prometeu ter nos trazido o fogo do Olimpo! Mas, como tudo que é divino, nunca saberemos ao certo se é castigo ou presente, afinal, essa vontade é o que nos move – mas, ao mesmo tempo: essa vontade é o que nos consome.

Podemos (e devemos) desejar muito, desejar alto ou até mesmo desejar sublime – isso com toda certeza produzirá energia e força. Mas, para não ficarmos presos na armadilha de um “querer sem fim” temos de lembrar que a felicidade está na jornada e não do objetivo.

Ficamos tão obstinados com nossas metas e objetivos que nos esquecemos de apreciar a paisagem. Na sabedoria oriental isso se chama viver o presente, ou seja, estar plenamente focado naquilo que se está fazendo – esquecendo-se por um momento da meta e vivendo intensamente o momento presente: “o fazer”. Funciona mais ou menos assim:

Quando seu time está ganhando por apenas um ponto você fica desesperado olhando para o cronômetro e torcendo para o tempo passar rápido. E o que acontece na prática? O tempo parece parar! O jogo se torna angustiante e a ansiedade toma conta do seu corpo. Agora, se o time abre grande vantagem no placar, o jogo se torna bonito, divertido, prazeroso e você sequer percebe o tempo passar.

Mas mais difícil ainda é a saudade: quando se espera alguém amado o relógio simplesmente parece parar.

Meu amor não se atrase na volta não, meu amor.
Mandei uma mensagem a jato / pras entidades do tempo já me foi verificado que nem mesmo haverá segundo
que os minutos foram reavaliados / pra cada suspiro serão 10 contados
– Céu

Depois, junto da pessoa amada: nem se percebe o tempo passar!

Será que conseguimos realmente aproveitar o tempo presente em sua plenitude? Ou o final de semana já acabou e o relógio agora está funcionando no “modo segunda-feira”? Se ficarmos presos nesta armadilha viveremos ansiosos pelo “dia da festa” que demora chegar, e arrependidos daquilo que podíamos ter feito na “festa que passou”!

Portanto:

(1) aproveitemos o castigo divino para desejar assaz;

(2) aproveitemos a força da ansiedade para nos preparar para o “grande dia”;

(3) aproveitemos o momento presente para agir – para nos entregarmos por completo nas atividades que sabemos levar ao nosso desejo;

(4) comemoremos cada conquista (por mais simples que seja) com aqueles que nos ajudaram e aqueles que amamos;

(5) não esqueçamos de apreciar a vista da janela!