Mas é claro que existe “cura gay”!

Mas é claro que existe “cura gay”! E para provar isso vou lhes contar um caso real. Os nomes foram trocados para proteger a identidade dos envolvidos, afinal esse fato se deu em 2016, numa cidade do interior do estado de São Paulo.

José Carlos procurou ajuda do psicólogo devido a grande pressão que sua mãe, carola que era, lhe impunha. Alguns membros da família já sabiam de suas preferências, notava-se até mesmo alguns trejeitos. Mas o que todos temiam mesmo era seu pai, um senhor sério, calado, sisudo. Sempre se orgulhou do primogênito, herdeiro da família, herdeiro da virtude! E foi quando ele soube que José Carlos se viu obrigado a procurar pela cura!

Sua mãe ouvira de um pastor algo a respeito da cura para os “desvios” sexuais e seu pai tinha certeza de que isso tratava-se de problema de cabeça, e assim exigiram que José Carlos procurasse por ajuda profissional.

A sorte de José foi ter encontrado Nelson, um proeminente psicólogo apaixonado pela sexualidade humana. Nelson estava em meio a sua tese de mestrado, que tratava justamente dessa área de estudo – não que José tenha servido de “estudo de caso”, mas sim o quanto isso ajudou a curar-se.

Foram meses de terapia. Muitas conversas, e mais conversas. Por vezes essas conversas requeriam a presença da mãe, por vezes do pai, várias vezes de pai e mãe e assim os avanços prosseguiam de maneira firme e constante, mês após mês, sessão após sessão. Até que, 6 meses depois: A cura!

Os pais de José descobriram o quanto ele era importante para eles, o quanto eles se amavam. E indignaram-se sobre como puderam ter colocado esse amor em risco apenas por uma bobagem: preferência sexual! Eles agradeceram a Deus, e ao Nelson, por terem mostrado a eles que o “foco de desejo sexual de indivíduo” em nada importa para a predição de felicidade, estima, sucesso, desempenho, competências ou de “herança da virtude”!

Eles se abriram para uma nobre forma de amor, aquela em que a minha plenitude só acontece quando da plenitude daqueles que amo. Uma forma que suprime qualquer coisa que possa afetar o prazer de conviver, como família. Quem sabe uma família moderna, com: “homos e héteros”; com filhos, enteados e adotados; cunhados e ex-cunhados – família aquela que entende que “apaixona-se mesmo é por gente”, não por gênero – um amor tão humano, mas tão humano, que chega a ser assexuado.

Enfim, José, sua Mãe e seu Pai foram curados!

——————————————–

Grande celeuma se deu essa semana a respeito desse assunto. Faço um alerta: cuidado com o que compartilha! Antes de compartilhar informações socialmente relevantes, certifique-se de que estudou todos os lados. Beba de boas fontes! Pois muita bobagem circulou nas redes.

Minha interpretação a respeito desse estardalhaço todo é que a liminar do Juiz Waldemar Cláudio de Carvalho não propõe cura gay alguma, outrossim salvaguarda o direito dos psicólogos de desenvolverem estudos, atendimentos ou pesquisas científicas a cerca sexualidade humana.

O conselho regional de psicologia (CRP) alega algo como: se não é uma patologia, não precisa ser estudado, pesquisado ou tratado – logo, afirmar o contrário seria assumir que é uma doença. O título da nota oficial do CRP emitida é: “Amor não é doença, é a cura” – concordo plenamente, está faltando apenas acrescentar que “sexualidade não é amor”. Qual a maior forma de amor que conhecemos? Para mim é o materno – realmente acho isso não tem nada a ver com sexo!

Definitivamente preferência sexual não é doença! mas daí a negar estudos científicos a respeito do assunto é retrocesso. Quanto podemos aprender sobre o convívio social ou os conflitos psicológicos em uma sociedade diversificada? E quanto ao excelente papel desempenhado pelo nosso amigo Nelson? Somos todos iguais, porém tempo diferentes!

Temos que considerar também outras coisas envolvidas como, por exemplo: violência, preconceito, desrespeito de direitos, falta de direitos, ética no exercício da psicologia… Isso tudo é louvável! E essa é a parte boa da celeuma!

Eu fico com o Magistrado, pois acho que ele elevou o pensamento um nível acima do CRP, considerando o assunto como sendo da “sexualidade humana” e não de gêneros e seus apetites sexuais!

——————————————

Mas, minha opinião pouco importa, convido você a criar a própria:

E para saciar sua vontade dá uma olhadinha nas manchetes que circularam. Veja o nível de sensacionalismo e descompromisso com a verdade, afinal, nenhum Juiz autorizou “cura gay”alguma!

Juiz que autorizou “cura gay” diz que decisão teve interpretação “equivocada”

‘Cura gay’: Conselho de Psicologia recorre da decisão que liberou tratamento da homossexualidade

 

Chega! Não quero mais ser feliz no trabalho

Sempre defendi e propaguei as ideias (ideais) sobre felicidade no trabalho, mas hoje quero oferecer um contraponto!

O que acontece na verdade é que me cansei de tanta poesia sobre o assunto. Eu mesmo sou autor de várias:

“… é importante compreender bem os seus desejos e as suas reais necessidades, aquelas que vêm do coração. Não podemos esquecer que o trabalho nos dá o senso de pertencimento, de utilidade e de importância na construção de algo maior. E essa sensação de importância, de fazer a diferença, com certeza contribui para alcançar a tão sonhada felicidade”- Felicidade e trabalho, João Xavier, novembro de 2011 – disponível em: www.ricardoxavier.com.br

“Podemos (e devemos) desejar muito, desejar alto ou até mesmo desejar sublime – isso com toda certeza produzirá energia e força. Mas, para não ficarmos presos na armadilha de um “querer sem fim” temos de lembrar que a felicidade está na jornada e não do objetivo”. O trabalho e os dias, João Xavier, novembro de 2016 – disponível em: www.joaodequeirozxavier.com.br

“Muitos já vivem essa plenitude. É o caso de professores, pesquisadores, arquitetos, programadores – todos que trabalham com criação vivem nesse mundo, afinal, quantos insigths não acontecem no banho, no sonho, no ônibus – de modo que a pessoa não sabe ao certo se ela está trabalhando, se divertindo, estudando, se cuidando. Plenitude no trabalho, João Xavier, abril 2016 – disponível em www.joaoqueirozxavier.com.br

Mas agora chega! É preciso dizer que não há espaço para todos serem felizes no trabalho. Sempre alguém precisará fazer o “serviço sujo”. Todo mundo quer fazer o que gosta, todo mundo quer deixar um legado, todo mundo quer ser chefe… acontece que para conseguir isso é preciso muito empenho, muita mão na massa, muito suor! E poucos estão dispostos a pagar o preço.

Outro ponto importante é que sempre (com raríssimas exceções) o resultado financeiro está diretamente ligado ao empenho exercido. É muito difícil encontrar alguém que trabalhe pouco e ganhe muito. Quando me deparo com casos assim, rapidamente identifico o quanto de dedicação foi empenhada no passado de modo a poder gozar disso no presente.

A ideia que tem circulado é que qualquer um pode ficar rico a partir da garagem da casa da mamãe, mas não é bem assim que funciona (recomendo a leitura da Biografia de Steve Jobs para constatação “dos preços” que ele pagou para conquistar o que conquistou). Sem falar que mais difícil do que conquistar é manter (ou aprimorar).

De qualquer forma, tenho agora que deixar minha realização profissional (o meu legado) autoral e voltar para os maçantes relatórios com prazos a entregar.

Aquilo que nunca te falaram sobre a Uber (Atualização)

Atenção: Você está diante de um dos melhores artigos por mim publicados. Para não soar arrogante: não quero dizer que o artigo é bom, mas sim que, dentre os meus, é um dos melhores. Faço esse alerta por dois motivos (1) o artigo é longo, mas vale a leitura, e (2) acabo de atualizá-lo – ele foi originalmente publicado em março de 2016, mas diante de tantas mudanças foi necessária uma nova edição – todas as atualizações estão sinalizadas.

Antes que esse artigo gere qualquer tipo de polêmica a respeito da Uber, quero deixar bem claro que não tenho nada contra a empresa ou seus serviços prestados. Usei e uso seus serviços sempre que necessário.

  • Atualização (Abr/2017): Não sou contra a entrada da Uber, muito pelo contrário, sou a favor da livre-concorrência. Mas o assunto é por demais complexo, envolve questões como: máfia dos alvarás, sindicatos, legislação, tecnologia … Por isso, minha singela proposta com este artigo é ampliar nossa visão e, consequente reflexão, sobre o assunto.

Tenho percebido certo glamour em se defender o serviço da  Uber. É como se quem defendesse os taxistas fosse retrógrado ou analfabeto tecnológico, no entanto, vejo algumas questões importantes que estão passando despercebidas pelos “fãs” do novo aplicativo. Aliás aqui já reside um ponto: (1) estão vendendo a empresa como se fosse uma empresa de tecnologia e que seu serviço nada tem a ver com o serviço de táxi – como se fosse apenas um aplicativo. Tenham certeza de uma coisa: trata-se de uma empresa, muito grande por sinal, e que se seus serviços não concorrem diretamente com os serviços de táxi, os de seus “parceiros” sim, concorrem diretamente.

  • Atualização (Abr/2017): Esse glamour todo se acabou. Seus motoristas reclamam da pouca lucratividade, a qualidade dos carros (e atendimento) despencou, afinal, os melhores profissionais abandonam a Uber na primeira oportunidade de emprego que aparece, e problemas com a segurança tem sido destaque na imprensa.

(2) O Serviço é tecnicamente ilegal e foi proibido em países como França, Itália, Alemanha e muitos outros. E por possuir apenas uma forma de pagamento (cartão de crédito) fere o nosso código de defesa do consumidor.

  • Atualização (Abr/2017): O aplicativo já oferece o pagamento em dinheiro. Na Franca a briga está muito boa e tem condenado a Uber a pagar multas milionárias e na Itália a proibição acaba de ser suspensa – mas a briga ainda continua pela Europa.

Antes da Uber, qualquer motorista que se propusesse a transportar passageiros recebendo algo em troca por isso era considerado transporte pirata. Como que num passe de mágica, depois da criação de um aplicativo, esse tipo de proposta se transformou em “carona compartilhada” ou mesmo em um serviço legal. Mas o que mudou na natureza dessa prestação de serviço para que o transformasse em algo legal? Nada! O mais interessante é que, por exemplo, prostituição não é crime, mas agenciar pessoas para esse tipo de “relação” o é. Pensando agora em Uber, uma atividade que já constituía-se como ilegal (o transporte clandestino de passageiros), depois de surgir um “agente” intermediador torna-se então lícita!?!

Duas grandes lendas surgiram: (3) o serviço é mais barato e (4) a qualidade é excelente.

O que acontece é que na interação: serviço x qualidade o preço é igual ou superior ao do táxi. A Uber tem dois serviços distintos: o Uber X e o Uber Black. O primeiro com a proposta de baixo preço e o segundo com a proposta de excelência no serviço, mas acontece que sua mensagem de marketing mostra como se essas duas características acontecessem simultaneamente, o que não é verdade – “vendem” a imagem do táxi preto, banco de couro, spotify – o que só acontece com o Uber Black. Além do mais, o preço é variável, existe um fator de correção (preço dinâmico) que ajusta o valor da corrida conforme a oferta e procura, portanto, em horários ou locais com maior procura o preço aumenta, de modo a não ser uma alternativa sempre mais barata (importante ressaltar que independente da dinâmica do preço, este é sempre previamente estimado quando da solicitação da corrida).

  • Atualização (Abr/2017): A qualidade do Uber-X caiu muito. Tem muitos carros velhos, motoristas despreparados e até mal-educados (já tive que pedir para que ligasse o ar-condicionado).

Aproveitando que estamos falando de qualidade, outros dois fatores (que inclusive já aconteceram comigo) interferem sobremaneira na experiência do usuário, a saber: (5) os motoristas podem escolher a corrida – é bastante desagradável encontrar um carro disponível à 10 – 15 minutos de distância. Sem falar quando após 1 minuto da solicitação você descobre que o motorista “sumiu”. E (6) muitos motoristas não são conhecedores da cidade de São Paulo e acabam por errar ou fazer piores caminhos (isso já aconteceu comigo duas vezes).

Estratégias e Posicionamento de Marketing

A empresa joga pesado (7), para não dizer sujo, em suas estratégias de marketing. Seus motoristas não estavam (e ainda estão) muito satisfeitos com a política de 15% de desconto (que já perdurava há 3 meses) adotada para ganhar mais clientes.

  • Atualização (Abr/2017): Essa política de desconto ainda perdura. A insatisfação dos motoristas é tão grande que já estão se organizando, promovendo manifestações e até greves. Muitos motoristas descredenciados estão entrando na justiça do trabalho e já há relatos de ganho de causas.

Grande verbas são destinadas a programas como: primeira corrida de graça, ganhe chope de graça em bares ao ir de Uber, dentre outras campanhas. Eles investem muito em influenciadores nas redes sociais e Youtube. Há quem diga até sobre falsos ataques de taxistas, o que não chego a acreditar, mas tenho a certeza do forte empenho por parte da empresa em viralizar ou exagerar os incidentes ocorridos e minimizar ou abafar as mídias que explicam sobre a (8) concorrência desleal, por exemplo.

Não há como negar a concorrência desleal! O mesmo serviço é oferecido e por preços (no caso do Uber X) consideravelmente menores – sem falar nessas campanhas que facilmente poderiam ser consideradas com prática de dumping.

O problema é que os taxistas não exercem poder diretamente na precificação de seus serviços – quem cuida disso são as Prefeituras, através de suas Secretarias de Transportes, portanto, os motoristas de táxis estão de mãos atadas.

  • Atualização (Abr/2017): Na verdade os taxistas não fazem pressão alguma no sentido de baixarem seu preço. Sempre digo: se o táxi fosse apenas 10%, quem sabe até 20% mais caro, em alguns casos. Com toda certeza eu optaria na maioria das vezes pelo Táxi! A frota de táxi de São Paulo e até mesmo a de Salvador não estão sucateadas. Claro que há casos de carros ruins, mas a maioria são carros com até 3 anos de vida, prazo pelo qual o taxista pode adquirir outro veículo com a isenção de impostos.
  • Tenho visto pressão de sindicatos de taxistas pedindo pela regulamentação da atividade do Uber, alegando concorrência desleal, quando na verdade acredito que eles deveriam buscar igualdade de direitos só que desregulamentando o Táxi.

Subemprego

Vou finalizar minhas críticas com o ponto que mais me incomoda e que diz respeito a minha área de atuação: a Uber é para mim considerado (9) subemprego!

A empresa cobra 20% de todo o resultado de seus motoristas (o que para mim é uma taxa absurda) e é ela que dita os valores das corridas. Os custos (gasolina, manutenção, depreciação, pedágios, impostos) são todos de responsabilidade do motorista. Eles “vendem” a ideia de que você pode ganhar 7, 11, 15 mil Reais, mas não falam que isso só é possível com o Uber Black (que exige um carro padrão corola) ou trabalhando mais de 12 horas por dia. E o mais importante: a renda dos motoristas está diminuindo, isso porque no início havia menos carros. Na medida em que aumenta a quantidade de motoristas credenciados, diminui a quantidade de corridas possíveis e diminui o preço da corrida (devido à precificação dinâmica), impactando diretamente no faturamento bruto do “parceiro”.

Ouvi de mais de um motorista dizer que no início dava para ganhar mais dinheiro e que agora as coisas estão mais difíceis. Quem fazia R$ 8 mil agora faz R$ 6, por exemplo. E a tendência é diminuir ainda mais, haja visto a exponencialidade do crescimento da empresa.

Quando comparado com a jornada de trabalho normal um motorista de Uber X realizará aproximadamente R$ 12.000,00 bruto mensal, que descontado taxa do Uber, manutenção, combustível, impostos, depreciação não restará mais do que R$ 6.000 líquido. Acrescente a isso o fato do emprego oferecer 13º. salário, plano de saúde e férias e verás que o negócio não é tão bom assim – equivaleria a um salário de R$ 3.800,00. (Veja aqui as bases de cálculo)

  • Atualização (Abr/2017): Esqueçam essa base de cálculo. Não precisamos mais. Já temos muitos depoimentos de motoristas informando uma receita média líquida semanal de R$ 750,00 -, logo, aproximadamente R$ 3.000,00 por mês. Mas tem um grande detalhe, nessa conta não está a depreciação do veículo. Portanto, o motorista tem a percepção de um lucro de 3 mil, quando na verdade, excluindo a deprecação, seu lucro é próximo dos 2 mil.

Pode até parecer um bom salário, mas imagine quando for preciso fazer uso da franquia do seguro ou mesmo quando o carro ficar parado para reparos e manutenções. E conforme dito anteriormente, a tendência é a concorrência aumentar e o rendimento do motorista cair.

O outro lado

De fato, (1) o consumidor foi favorecido. No meu caso, por exemplo, uma corrida para o Aeroporto de Guarulhos com a Uber, fica na faixa de R$ 55,00, enquanto que o táxi comum está na faixa dos R$ 100,00 e o Guarucoop não sai por menos de R$ 135,00.

Viajo com muita frequência e costumo voltar as sextas-feiras muito tarde, por volta da meia noite. Sempre encontro grandes filas no táxi do aeroporto. São duas filas na verdade: uma para pagar e outra para pegar o carro. Já cheguei a ficar 30 minutos nessa espera. Ou seja, quem me cobra o maior preço é quem me oferece o pior serviço.

A qualidade do serviço é muito superior quando tratamos do Uber Black e relativamente superior quando falamos de Uber X. Digo relativamente pois vejo que o serviço de táxi na cidade de São Paulo é muito bom. Dificilmente encontramos taxistas mal-humorados ou mal-educados, o que não posso afirmar quanto a outras praças, como o Rio de Janeiro, por exemplo, onde já tive muitos problemas com taxistas.

Outro ponto importante é que (2) subemprego é melhor que desemprego. Na atual situação do mercado de trabalho, a Uber aparece como uma boa fonte de trabalho e receita.

Por fim, entendo que (3) o grande problema reside na máfia que se formou em torno dos alvarás de licenças dos taxistas.

Conclusão:

  • Atualização (Abril/2017): Se os taxistas tivessem se empenhado em baixar sua tarifa (10-20%) e melhorar a qualidade do atendimento (veículo, tecnologia e educação dos motoristas) em vez de brigarem e exigirem regulamentação da Uber, com certeza hoje estariam em melhores condição de competição.

A tecnologia, com suas infinitas possibilidades, está transformando o mundo. As regras criadas no passado não mais atendem as necessidades presentes e, principalmente, futuras. No caso dos Táxis, por exemplo, a regulamentação criada pela legislação e pelas secretarias de transportes foi necessária justamente para proteger os taxistas e os passageiros, legislando sobre preço, formação profissional, direção segura e rentabilidade da profissão. O que protegeu os taxistas no passado é o que está os matando no presente – devido a todo o aparato regulatório eles não têm como reagir à concorrência.

O Uber descortina o momento de ruptura pelo qual estamos passando. É impossível se chegar a uma conclusão a respeito dessa situação – não dá para apoiar 100% nenhuma das partes, todas carregam consigo boas razões e algumas sacanagens.

O que acho que está acontecendo é que a tecnologia está colocando em cheque o atual sistema econômico. Ela está extrovertendo o grande conflito interno do ser-humano: ego x self. Como animais somos egoístas, mas como humanos somos altruístas.

Ainda não percebemos que: ser rico enquanto a maioria é pobre, não é tão bom assim; ser saudável enquanto a maioria adoece, também não é tão bom assim; ser culto enquanto a maioria é ignorante, também não é tão bom assim.

De maneira mais poética e artística lhes digo: o amor existe para nos ensinar essa lição, é só trocar a palavra “maioria” pela palavra “irmão” no texto acima. Vamos lá faça o teste. Não vou reescrever o texto, quero que você o releia substituindo as palavras conforme sugeri… insisto – não vou seguir com o texto enquanto você não o fizer!

E ai, que achou?

Mas dito de maneira mais técnica: é como propôs Thomas Friedman, jornalista norte-americano em seu livro: O Mundo é Plano. Estamos vivendo um conflito de papéis:

O João empresário que reside aqui dentro de mim não quer pagar impostos, quer pagar os menores salários e vender seus produtos e serviços pelo maior preço possível. O João consumidor que também reside aqui comigo, quer comprar os produtos e serviços mais baratos possíveis. Já o João funcionário, que também reside cá comigo, quer o maior salário possível, com os maiores benefícios e com menores impostos. Por fim, o João cidadão brasileiro, quer saúde, educação, transporte …

Quando vamos acordar para “o todo”? É chegada a hora de uma economia mais humana, uma economia de colaboração, com melhor distribuição do bem.

Carta ao amigo controlador

Querido(a) amigo(a),

Já faz algum tempo que ando preocupado com você. Percebo que tens atingido um nível de estresse muito elevado – percebe-se pelos reflexos em seu corpo: certo envelhecimento, mas principalmente pelas suas alterações no peso.

Não quero que entenda como uma crítica, principalmente negativa, mas sim que perceba minha intenção: seu bem-estar. São apenas minhas observações, quem sabe equivocadas, quem sabe enviesada, mas se falo é porquê acredito, não é mesmo? Não colocaria nossa relação em risco se não me importasse muito com você.

Gostaria que você pensasse um pouco sobre sua necessidade de controlar as coisas: eventos e pessoas. Na verdade, isso é belo, louvável. Você é muito competente em tudo que faz. Isso é uma grande qualidade – planeja e executa como poucos. É muita atenção, dedicação e cuidado.

O problema é que nem tudo pode ser controlado. Tem coisas que apenas são como são, tem coisas, inclusive, que precisam ser como são. E quando diante de uma dessas situações, é demais sua aflição!

Perceba mais uma grande qualidade sua, sua necessidade de controle é altruísta: você se intromete na vida dos outros simplesmente por querer bem. Isso é amor. A questão é que a invasão em excesso pode sufocar, ao invés de libertar. Pode inibir o aprendizado e desenvolvimento das pessoas. Sem falar que nem sempre suas estratégias e soluções são as melhores – claro que sua experiência e dedicação provocam muito mais acertos do que enganos, mas lembre-se de que também se aprende com enganos.

Impor opinião, definir os passos de locomoção – acreditar que o seu jeito é o jeito certo – pode não ser de bom tom – as coisas mudam, as pessoas são diferentes: as possibilidades são infinitas. Você acredita que nem sempre errar é um problema? Há quem diga que Cabral só descobriu o Brasil porquê errou! Na ciência e nas inovações tecnológicas encontramos vários exemplos desse tipo de equação. Já ouviu falar em Design Thinking? É uma metodologia utilizada para o desenvolvimento de produtos ou de negócios, cuja filosofia é baseada, dentre outras coisas, no seguinte: erre o quanto antes! quanto mais cedo errar, mais barato vai custar.

As pessoas seguem por diversos caminhos – sejam eles tortos, curtos, iluminados, escuros, pavimentados, pouco trilhados – pouco importa: o que importa mesmo é como apreciamos a jornada.

Seu afastamento me faz crer que: quanto menos pessoas se relacionar, menos preocupações terá – são vidas a menos para controlar, lê-se: se preocupar, aconselhar, indicar, obrigar, criticar. Às vezes tenho até a impressão de que para você “estar com uma pessoa” significa “estar com os problemas dessa pessoa”.

Você cumpriu com louvor várias missões, onde essa sua competência foi fator decisivo. Continue com atenção. só cuide para não cruzar a linha – cuide apenas daquilo que mais importa – daquilo que tens por obrigação.

O mundo é bastante imperfeito, não tentemos concertá-lo! Vamos ter fé na humanidade – que avança, ante erros e acertos. Tenhamos fé nas pessoas, que evoluem aos poucos e na medida em que enfrentam seus problemas. Tenhamos fé em um futuro melhor.

Beleza e mercado de trabalho

Ontem participei de uma matéria da rede Record que abordava o tema dos efeitos da beleza nos processos seletivos, baseando-se em uma pesquisa da Elancer, intitulada: “Empresas evitam contratar profissionais com beleza acima da média”.

O interessante é que apesar da pesquisa apenas relatar os resultados apurados, a imprensa cuidou de criar grande especulação sobre os porquês dos dados. Vejamos:

A pesquisa apurou que:

  • 46% dos recrutadores entrevistados preferem contratar profissionais com a aparência mediana;
  • 2% procuram por profissionais de beleza acima da média e;
  • 1% declarou procurar profissionais feios.

Esses dados foram suficientes para criar uma celeuma sobre as razões pelas quais um recrutador, ou um contratante, preteririam um candidato muito bonito. Dois fortes argumentos foram levantados:

  1. O recrutamento é realizado em sua grande maioria por mulheres, solteiras e com idade média de 29 anos.
  2. A direção de algumas empresas acredita que pessoas bonitas provocam distrações.

Esses dois argumentos já são mais do que suficientes para constatar que estamos tratando de um preconceito, pode parecer estranho – um preconceito com pessoas bonitas!? Mas sim, é uma concepção antecipada de juízo. O critério “beleza” deveria ter maior peso em processos de seleção de modelos, por exemplo. Em áreas como atendimento ao cliente, vendas, promoção, relacionamento, a beleza até pode interferir, mas ainda assim, fatores como: oratória, postura corporal, bagagem cultural/educacional, decoro – devem vir primeiro.

Já que estamos falando de preconceito, foi inclusive sugerido nas matérias que também se tratava de um aspecto cultural oriundo da crença de que se a pessoa é bonita, é burra – Mais um tremendo absurdo.

As distrações sugeridas no item 2 parecem estar relacionadas a atração física/sexual, sugerindo que as pessoas costumam desviar sua atenção do trabalho para a beldade (começo a achar que é melhor demitir os distraídos e contratar quem detém suma-beleza). Mas há casos reais em que gestores evitam a contratação. Talvez por conhecerem suas fraquezas ou mesmo o nível de ciúmes de seus parceiros. Nós mesmos já tivemos um caso em que a cliente exigiu que não contratássemos pessoas muito bonitas ou vistosas. Era para uma vaga de assistente de diretoria e a contratante era nada menos que a esposa do diretor requisitante.

Mas o que mais me chamou a atenção mesmo foi o primeiro item, que sugere uma “rivalização” feminina, onde recrutadoras não aprovariam aquelas mais belas do que elas. Acreditar que esta seja a razão por trás dessa forma de preconceito é acreditar que este só acontece com as mulheres, e o que é pior: é afirmar que as mulheres estão tendo preconceito com as próprias mulheres!  Tenho mais de 10 anos de experiência nesta área. Já estive a frente de equipes grandes de recrutadoras e nuca sequer ouvi falar disso! Das duas uma, ou eu “vivia no mundo de Alice” ou essa suposição é completamente equivocada.

De qualquer forma, que fique bem claro: seleção de profissionais deve se basear primordialmente em: conhecimentos, habilidades, atitudes e resultados. Os outros critérios, sejam eles quais forem, devem ficar em segundo plano, e seu julgamento, bastante cauteloso.

Lidando com os boatos nas organizações

Sempre tive certa fascinação pelos boatos. É curioso observar a velocidade com que ele circula e deleitante recebê-lo em seus ouvidos, isso porquê os boatos circulam apenas entre aqueles que são dignos de confiança. Exatamente! Ouvir um boato, assim como propagá-lo, gera senso de pertencimento.

Sua velocidade está diretamente ligada à eficiência da rádio-peão, ou rádio-corredor, como também é conhecida. É a famosa comunicação de boca em boca, que costuma ser muito mais eficiente do que os avisos, informes e comunicados – das mais diversas mídias, como: intranet, murais, memorandos, e-mails. E aqui reside outra fonte do meu fascínio: o boato é orgânico – ele é formado naturalmente a medida em que circula estimulando ouvidos, provocando línguas e abrindo bocas.

Em sua origem, do Latim boatus, “mugido, grito”, de bos, “boi”, o boato assume um significado de notícia propagada, gritada aos 4 cantos – hoje, em sua forma mais potente: viralizada! Até este ponto da história o boato estava imaculado, ou seja, não se tratava de mentiras, maledicências ou fontes obscuras ou informais – quando muito: notícia sem importância. Mas hoje o boato assume um significado de notícia fantasiosa, infundada, informal.

É importante diferenciarmos algumas coisas:

Boato x fofoca

Fofoca: normalmente trata de pessoas, enquanto que os boatos tratam de notícias, eventos, acontecimentos. A fofoca costuma carregar consigo uma boa dose de maldade, já o boato dificilmente o faz, afinal, como já dito ele é orgânico, logo, só terá maldade se esta for a vontade do “grupo-fundador” – é também possível “plantar” um boato, neste caso, passível de maldade ou obtenção de vantagens. Desse modo, são raros os boatos que se tratam de fofocas, já a maioria das fofocas tratam-se de boatos. A fofoca dificilmente trata de mentiras, quando muito: enganos ou exageros – mas em sua maioria é apenas o deleite para com a desgraça, graça ou estupidez alheia[1].

Boato x mentira

Mentira: a mentira é algo totalmente intencional! É faltar com a verdade. Com toda certeza carrega consigo a maldade, omissão, dissimulação ou vantagens. Já o boato nunca se preocupa com a veracidade da informação. Sua maior preocupação parece estar na velocidade da divulgação – pouco importa se o que estou transmitindo é verdade ou mentira, estou apenas “vendendo o peixe pelo preço que comprei”, não é assim que dizem?

É nesse ponto que entra a importância do assunto para o contexto organizacional: ao lidar com um boato pouco importa se é este é mentira ou fofoca, o que mais importa é o impacto que causa no comportamento das pessoas.

Vejamos alguns exemplos:

Boato + mentira:

Se um boato é também uma mentira, as pessoas passarão a se comportar como se a mentira fosse verdade – algo bastante danoso, não é mesmo? Por exemplo: um boato sobre a substituição de um diretor pode alterar significativamente a dinâmica da arena política da organização. Alguns funcionários se sentirão inseguros em relação ao novo diretor, outros começarão a “mostrar mais serviço”, outros atualizarão o currículo … mas o mais curioso deste tipo de situação é que está é a mais fácil de resolver: basta apenas comunicar formalmente e de forma eficiente a verdade. Fazendo assim, o boato simplesmente desaparece!

Boato + mentira + fofoca

Assim como no caso anterior a “cura” é bastante simples e, se adotada de maneira eficaz, extingue o mal pela raiz. A questão passa ser a velocidade com que o boato é desfeito. E isso envolve não só a velocidade com que se realiza a comunicação da verdade, mas principalmente a velocidade com que se descobre a existência do boato. E aqui vai o alerta: quanto maior o nível hierárquico, pior a sintonia da rádio-peão! Por isso que gosto de fazer passeios pelos cafés e corredores das empresas, lá não só a sintonia é melhor, como também o volume.

Boato

Agora vêm os casos mais difíceis, quando boato se apresenta em sua forma mais genuína, qual seja: tratando-se da verdade antecipada por colegas mais influentes que proporcionaram alguns vazamentos (seletivos ou não; intencionais ou não – muitas vezes o comportamento dos diretores indica claramente o que está acontecendo). Por exemplo: a alta direção da empresa resolveu abandonar determinado segmento (ou produto) do mercado. Com isso, algumas pessoas e alguns departamentos deixarão de ter funcionalidade, logo, transferências e demissões serão feitas. Algumas pistas são facilmente decifradas pelos demais funcionários, como: corte de verba, demora na resposta de e-mails, redução da quantidade de reuniões, enfim, as pessoas envolvidas neste segmento (ou produto) conseguem perceber com facilidade as mensagens subliminares.

O problema é que enquanto não se extirpa o boato, comunicando de uma vez por todas o que está acontecendo e como será feita a transição, o medo e a insegurança tomam conta do clima da organização – pessoas não diretamente afetadas pela situação poderão se preocupar mais do que o necessário e até algumas pessoas diretamente impactadas poderão ser pegas de surpresa! O fato é que, com toda a certeza a produtividade (mesmo em áreas pouco impactadas) cairá.

Solução? Mais uma vez: dizer logo a verdade! O ponto principal passa a ser a velocidade da estruturação e implementação das ações da mudança, de modo a poder comunicá-las o mais rápido e com a maior transparência possível.

Boato + fofoca

Sempre guardo o melhor para o final. Imaginemos agora uma situação onde o boato é também uma fofoca e ainda por cima trata-se de verdade. Um exemplo levemente frequente: dois colegas de trabalho estão tendo um caso, sendo que um deles é casado. Essa situação se agrava ainda mais se houver relação de subordinação entre eles. De qualquer forma, em ambos os casos os possíveis danos são previsíveis: desrespeito, insinuações, piadinhas, insubordinações – com consequente influência no clima, processos de trabalho e na produtividade.

E agora, como proceder neste caso? Só tem uma maneira: dizer a verdade! O ponto principal nesse tipo de situação é que a verdade, teoricamente, não pode ser dita, correto? Sim, mas não há alternativa: assume-se logo o relacionamento ou convive-se com o boato enquanto o relacionamento durar.

Essa é uma situação bastante espinhosa e que costuma acabar em demissão e/ou divórcio. A organização não pode permitir que os efeitos danosos deste boato se instalem e, como a empresa não deve interferir em assuntos de relacionamentos pessoais, muitas vezes a demissão é a solução para o caso.

Claro que a situação ficaria mais branda se neste exemplo nenhum dos dois fosse casado, pois aí caberia apenas avaliar os impactos do relacionamento nos processos de trabalho e desempenho da equipe, mas essa nova hipotética situação teria muito menos chance de se tornar um significativo boato! Por isso preferi apimentar o exemplo.

Conclusão

A melhor maneira de se enfrentar um boato é simplesmente dizer logo a verdade! Se o boato estiver fundamentado em uma mentira, só a rápida apresentação da verdade poderá extingui-lo. Se estiver fundamentado na verdade, a questão é: por que a formalização da verdade ainda não foi feita? Muito provavelmente por estratégia da alta direção da empresa – normalmente porque a empresa ainda não está devidamente preparada para enfrentar os impactos do “evento” nos funcionários, mercado, concorrentes ou clientes. Neste é preciso avaliar qual o menor custo: antecipar a verdade ou conviver com o boato – de qualquer modo, apressar o planejamento e execução de ações de reparo (ou mesmo preparo) dos impactos do “evento” é a ordem do dia.

[1] Para saber mais sobre fofoca nas organizações leia: Fofoca: veneno que circula nas organizações

A minha carne é fraca

Atenção! Este não é mais um artigo sobre a tal operação da polícia federal, mas sim sobre as reverberações deste tipo de acontecimento. Estamos todos espantados como as coisas repercutem nos tempos de internet e redes sociais. Já nem assustamos mais com a velocidade, o que mais nos assusta é como surgem opiniões tolas, loucas, ignóbeis dos mais diversos tipos de pessoas – todas se julgando especialistas.

Nossa primeira reação é culpar o Facebook, as emissoras e a internet, mas atenção: a culpa não é delas! Elas estão apenas “esfregando” o espelho na nossa cara, mostrando-nos nossas imperfeições. Aqui mesmo já podemos ver uma delas: responsabilizar os outros pela nossa desgraça.

As redes sociais deram voz a qualquer pessoa. Qualquer um pode divulgar sua opinião sobre qualquer assunto. E aqui está outra imperfeição humana – o pedantismo (demonstrar conhecimentos que não possui; ostentar cultura, erudição)

Se pararmos para pensar: sempre foi assim. Lembra-se dos tempos de escola? Em 1980, um primo de um amigo da minha tia disse que faziam salsicha com jornal. Sempre tinha os entendidos do assunto! Seja no futebol, na religião, nas modinhas adolescentes. Era importante demonstrar conhecimento, isso gerava reconhecimento e pertencimento – isso é humano. Além do mais, é importante ser ouvido, é importante expressar opiniões e sentimentos: o problema é que todo mundo quer falar, mas ninguém quer ouvir!

Temos vários exemplos para pegarmos como estudo de caso: lava-jato, carne fraca, mensalão, Donald Trump – mas quero refletir um pouco sobre a carne fraca, pois esta não envolve partidos políticos, apesar de haver compartilhamentos dizendo o contrário, que por sorte não emplacaram (acho que desta vez a culpa não foi do FHC).

Encontrei algumas reverberações sobre a carne fraca:

  • Culparam o Tony Ramos, Fátima Bernardes e o Roberto Carlos;
  • Disseram que o Lulinha é um safado;
  • Os Estados Unidos estão por de trás dessa operação, com o objetivo de minar nossas exportações;
  • Nossa carne é imprópria;
  • 752.922 piadas e memes (apurados até o encerramento deste artigo)
  • Nossa polícia federal é pirotécnica, espetaculosa;
  • A Rede Globo está lucrando com os anúncios.

Muitas opiniões se formaram a respeito do tema, muita m*#@ para nossos ouvidos. Muitos entendidos do assunto! Por Deus! É tão difícil formular uma opinião. Mais difícil ainda: se manter fiel a ela! Sou mais Raul Seixas com a sua metamorfose ambulante. A medida em que as coisas evoluem, neste caso, a medida em que os fatos aparecem, o julgamento é afetado.

Só consigo pensar em duas razões para alguém sair palestrando besteira sobre algum assunto: ignorância ou má fé! E uma horda de ignorantes ou massa de manobras compartilha tais bobagens. Já chamei a atenção sobre os impactos compartilhar as coisas sem saber (ou mesmo sem ler/ver), não faça parte deste ingrato grupo (veja em: “Só acredito vendo” e “Avalanche de informações”).

Quer saber a minha opinião sobre o episódio? Se a resposta for sim, leia o parágrafo abaixo, do contrário, passe diretamente ao seguinte.

Vejo esta operação com naturalidade. A indústria alimentícia trabalha duro para a qualidade dos seus produtos. Ela sabe o impacto que um produto estragado ou adulterado pode causar na sua marca. Pior ainda: o impacto de algum problema de saúde em seus consumidores. Ao mesmo tempo, esta mesma indústria trabalha duro para se manter no mercado: enfrentar concorrentes, gerar lucro. Por vezes alguns profissionais são pressionados ou tentados a praticar ações ilícitas ou inescrupulosas para obter vantagens ou manterem-se no emprego. Para isso temos órgãos responsáveis por examiná-las e creditá-las. O problema é que esses órgãos também têm profissionais pressionados e tentados a praticar esses mesmos atos. E no final das contas, quem devia nos proteger, protege a si mesmo. O problema é que no Brasil parece haver grande quantidade desses profissionais. Será verdade? Acredito que sim, mas tenho certeza de que é menos do que pensamos, afinal, quando falta caráter: manchete em jornais e grande repercussão nas redes; mas quando ocorre um bom gesto: pouco se fala! Alguém reparou que pouco destaque se deu ao funcionário honesto do Ministério que denunciou o esquema? Esse é o meu herói! O problema parece estar mais ligado a política e a corrupção do que a segurança alimentar.

Minha opinião está baseada em duas fontes:

  1. Papelão e substância cancerígena ou exagero? O que se sabe – e o que é dúvida – na Operação Carne Fraca” – BBC Brasil;
  2. Carne Fraca é a nova Lava Jato, diz fiscal que denunciou esquema de venda de carne adulterada” – CBN Curitiba.

Responsabilizar os outros, trapacear, fofocar, iludir, cobiçar, exibir-se, proteger-se, promover-se – tudo isso é humano! Quem se habilita a atirar a primeira pedra? Por isso, meus queridos amigos, procuro falar apenas daquilo que entendo, e com a certeza de que sempre terei mais a entender; me esforço para ser receptivo às opiniões divergentes; e evito desviar minha atenção à lisura dos meus gestos, comportamentos, palavras e ações, afinal: minha carne é fraca!

Minha homenagem às mulheres

Não é só no dia 8 de março que eu me preocupo com minha contribuição para o empoderamento da Mulher!! Mas essas datas especiais servem para reforçar os nossos sentimentos em relação aos temas.

Em 2015 ressaltei o quanto os homens podem aprender com as competências femininas:

  • Empatia
  • Resiliência (advinda de jornada dupla, luta contra preconceitos)
  • Flexíveis- (menos preconceituosas)

No ano passado, trouxe um pouquinho do artigo de Robin Ely, Herminia Ibarra e Deborah Kolb: Mulheres em ascensão: barreiras invisíveis.

Que reconhece os avanços da luta pela igualdade de direitos, mas que ainda temos que encarar uma forma mais sutil de preconceito, um preconceito não intencional, mas de grande impacto no desenvolvimento da liderança feminina que que as autoras chamam de “segunda geração de preconceito de gênero” .

Esses artigos são ótimas fontes de informação e combate ao preconceito. Recomendo a leitura.

Tenho também procurado trazer ações práticas de luta contra as disparidades.

Por isso, este ano resolvi ir direto ao ponto, propondo algumas ações ou conceitos capazes de diminui-las.

1 – A primeira delas, como não poderia deixar de ser, é tomarmos consciência de que o preconceito existe; O primeiro passo para tratar qualquer tipo de doença é este – reconhecer sua existência: quem não sabe que está doente, não se trata.

2 – A segunda é: entender de uma vez por todas que o valor do salário está no cargo, independente de quem o ocupa. Lógico que existem variações, podemos vê-las no ambiente machista. Mas as variações não podem ser a regra e devem estar bem fundamentadas nas competências de quem ocupa o cargo, independente de gênero.

As próximas sugestões de ações variam um pouco segundo o papel exercido na sociedade:

3 – Se você é homem – procure apreciar e valorizar as caraterísticas marcantes do gênero feminino, como as ditas anteriormente. Trata-se de completar-nos, juntarmos todas as competências, de cada gênero.

4 – Se você é um gestor – procure montar uma equipe equilíbrio em relação ao gênero, tanto na base operacional, como, principalmente, na liderança (aqui cabe uma ressalva: não somente de gênero!).

5 – Agora, se você é pai, além de dar boa educação e formação para sua filha, empodere-a! Mostre para ela que o que nos une como humanos são as semelhanças e não as diferenças. Mas não se esqueça de mostrar também que o que nos desafia não são nossas semelhanças, e sim nossas diferenças.

2015 eu disse as mulheres: “Parabéns por trazerem mais humanidade às organizações”.

2016 – “Viva a competência feminina”.

2017 – “Empodere-se”.

Fofoca: veneno que circula nas organizações

A fofoca é um veneno que costuma circular nas organizações. Na verdade, onde há gente, há fofoca. Mas por que será que gostamos tanto de falar dos outros? Falamos dos outros por diversão, por maldade, distração, alívio e até mesmo promoção.

Falar dos outros por diversão pode acontecer de duas formas: a) chacota, gozação; b) simples narração de uma alguma acontecimento engraçado na vida da pessoa. Quando se trata de gozação as consequências não positivas, podendo acabar em bulling ou grande humilhação, mas quando se trata de narrativas divertidas, as consequências são positivas e o humor dos envolvidos fica elevado – desde que os personagens concordem com a divulgação do acontecido.

A diferença entre falar por diversão e falar por distração reside na natureza do que é comentado. No caso da distração os assuntos são mais simples, com quase nenhuma carga emocional e completamente inofensivos. Tratam-se de amenidades e pequenas curiosidades acontecidas com outrem.

A fofoca para alívio é para mim a mais interessante. É impressionante como falar da desgraça do outro nos ajuda a lidar com as nossas próprias desgraças. As vezes nos sentimos desolados, tristes e até meio deprimido, mas ao tomarmos conhecimento de alguém em pior condição, imediatamente “levantamos, sacudimos a poeira e damos a volta por cima”.

Mas a pior de todas as formas de fofoca é aquela que quer prejudicar, magoar, ferir ou denegrir o outro. Ah, quanta maldade reside em nós, seres humanos! Por que diabos temos o habito de falar mal dos outros? Bem, eu tenho algumas teorias: 1) se eu não consigo me “elevar”, posso baixar o outro de modo a parecer (ou me sentir) mais elevado; 2) posso expurgar um pouco da minha raiva, culpa ou incompetência colocando o outro em situação pior que a minha (mais ou menos como explicado na fofoca para “alívio”); 3) podemos também denegrir o outro para nos defender ou proteger. Se vejo meus colegas de trabalho como uma ameaça ao meu emprego ou à minha carreira, também posso recorrer a fofoca maldosa para “eliminar” meu concorrente.

De qualquer modo, quero parafrasear mais uma vez Eleanor Roosevelt:

“Grandes mentes discutem ideias; mentes medianas discutem eventos; mentes pequenas discutem pessoas”

Então vamos procurar manter a proza no nível das ideias ou mesmo dos eventos.

Por fim, tem a fofoca que visa promover determinado grupo ou pessoa. É uma fofoca do bem. É quando falamos bem de uma pessoa pelo simples fato de admirá-la, respeitá-la ou mesmo para ajudá-la a conquistar algo. Essa é uma fofoca saudável e que deve ser feita com a maior frequência possível.

Dizem que certa vez um discípulo chegou à Sócrates e disse:

– Mestre tenho algo a falar sobre “Fulano”, mas não sei se deveria dizer.

Sócrates então respondeu:

– Você já fez o crivo das 3 perguntas? Antes de dizer qualquer coisa você deve submetê-la ao crivo das 3 perguntas:

1º. O que você tem a dizer é verdade?

2º O que você tem a dizer tem bondade?

3º O que você tem a dizer trará algum benefício?

Se a resposta for não para qualquer uma das perguntas: cale-se!

Costumo apresentar o crivo das 3 perguntas em meus treinamentos e sempre comentava que: se levarmos a sério o crivo das 3 perguntas de Sócrates, não falaríamos mais quase nada. Mas, como sempre digo que aprendo mais com meus “discípulos” do que eles comigo, uma vez um participante me disse: “Não, muito pelo contrário: o desafio agora é manter a ‘taxa de conversação’, procurando por coisas boas para se falar!”.

A fofoca consuma ser comparada ao veneno. E qual o meio de circulação desse veneno? A boca, de pessoa para pessoa. Portando, qualquer um detém o poder de bloqueá-la: basta calar-se e não passá-la adiante!

 

 

O trabalhador brasileiro é produtivo?

Estava conversando com um profissional que acabara de conhecer, e após nos aprofundarmos na recíproca apresentação curricular, sabendo que eu era da área de recursos humanos, mais especificamente atuando diretamente no mercado de trabalho, ele me disparou a seguinte pergunta:

– O que você me diz sobre a produtividade do brasileiro?

Fiquei sem resposta. Percebi que nunca tinha refletido muito sobre esse assunto. O máximo que chegara a abordar eram os excessos de reuniões, muitas vezes improdutivas, e o “caminhão” de burocracias. Resolvi então vasculhar um pouquinho a internet e escrever algo a respeito do assunto.

Primeiramente, temos que compreender que a produtividade de um trabalhador pode ser vista como a quantidade de bens ou de valor produzido, dividido pela quantidade de horas trabalhadas. É muito importante esclarecermos bem isso, pois dentro das minhas buscas, encontrei uma pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) que aponta que o custo de mão de obra para produzir no Brasil subiu, o que não tem nada a ver com a produtividade do brasileiro e sim com o custo de produção, e gerou títulos de matérias e artigos como:

Trabalhador brasileiro tem a menor produtividade entre 12 países 

Produtividade do brasileiro é a que menos cresce durante uma década 

‘Economist’: Trabalhador brasileiro precisa sair de ‘letargia’ para economia crescer

Este último, o da Economist, diz que o brasileiro é preguiçoso e que só pensa em curtir a vida. Portanto, muito cuidado para não confundirmos custo da mão de obra com produtividade do trabalhador. Esta deve ser visto como: quantidade de homens/hora gasta para se produzir “x” Reais.

Desse modo, o melhor indicador que encontrei é o da Conference Board, organização americana que reúne cerca de 1.200 empresas públicas e privadas de 60 países, que apresenta a produtividade dos trabalhadores de um determinado país como sendo a razão do PIB, dividido pela quantidade de trabalhadores empregados.

equacao produtividade do trabalhador

Esse indicador, colocou nós brasileiros como 4 vezes menos produtivos do que o norte-americano, 2 vezes menos produtivos que os chilenos e 0,5 vezes menos produtivos do que os argentinos.

Pronto, está aí a resposta: O trabalhador brasileiro é muito improdutivo, 4 vezes mais improdutivo do que os Estadunidenses!

Não gostei da resposta, como também sou um trabalhador brasileiro vou tentar me defender:

A fórmula proposta tem em seu numerador o PIB, aumentando o PIB, aumentamos a produtividade do trabalhador. São diversos os fatores que impactam no PIB de modo que: alta carga tributária, juros altos, inflação, infraestrutura, regulamentação – afetam sobremaneira o produto dessa equação.

Falar de regulamentação nos leva à burocracia, que impacta nos dois lados do divisor (numerador e denominador), vejamos: a burocracia impacta negativamente no PIB, com PIB menor, menos empregos são gerados – o que já causaria o tal impacto duplo que aqui proponho, mas ainda tem um agravante, a burocracia também onera diretamente o custo da contratação de profissionais, portanto, ainda por cima desestimula a geração de empregos. É um efeito tríplice!

O mais interessante é que diminuir a burocracia exige baixo grau de investimento. Desburocratizar é delegar mais poder a outros atores, é otimizar os processos e procedimentos e informatizá-los. É só ver o que Jack Welch conseguiu ao conclamar uma verdadeira guerra contra a burocracia na GE.

Outro ponto muito discutido em relação ao impacto na produtividade é a tecnologia e inovação. Quanto mais as máquinas e os computadores nos ajudam a trabalhar maior é a nossa capacidade de produção no mesmo espaço de tempo, e ainda mais, menor é a quantidade necessária de empregados, causando assim outro impacto duplo (numerador e denominador).

Desse modo, podemos ver que quando estudamos a produtividade do trabalhador brasileiro este pouco tem de responsabilidade sobre a melhoria de seu desempenho, os fatores que mais pesam na equação são exógenos – tecnologia, recursos, sistemas, gestão.

Tem um fator que ainda não disse e que oferece algum peso à assunção da responsabilidade pela produtividade de nós trabalhadores: Educação. A educação, quando vista de forma macro, é de responsabilidade dos nossos governantes, que devem não só oferecer escolas, universidades e centros de pesquisas, como também fomentar que a iniciativa privada também ofereça.

É de responsabilidade dos governantes, das instituições de ensino e das empresas, garantir o devido alinhamento entre as competências necessárias ao mercado de trabalho e o que se ensina nas escolas – claro que as necessidades da sociedade como um todo também devem ser contempladas, mas meu foco aqui é mercado de trabalho.

As empresas também deveriam investir mais em treinamento, a diferença do gasto das empresas brasileiras em treinamento, comparado às empresas norte-americanas é muito grande.

Mas de forma “micro”, podemos dizer que nós todos somos responsáveis por nos desenvolvermos intelectualmente. Quanto mais domino os recursos dos computadores, gadgets, internet, redes e equipamentos, mais produtivo me torno. Quanto mais competências técnicas, gerenciais, estratégicas eu adquiro, mais produtivo fico.

O funcionalismo público no brasil é outro fator importante. Baixa tecnologia, poucos ou piores recursos ferramentais, estabilidade, benefícios diferenciados, também contribuem para puxar a produtividade do brasileiro para baixo.

Contraponto

Essa equação é muito cruel! Em seu denominador reside a quantidade de profissionais empregados, portanto, se diminuirmos a quantidade de pessoas empregadas e, pelo menos, mantivermos o PIB, aumentaremos o indicador de produtividade. E ainda pior: só posso aumentar a quantidade de empregados se obrigatoriamente aumentar o PIB, pois do contrário o índice de produtividade do trabalhador cairá.

A maioria dos fatores analisados não dependem diretamente de nós, profissionais. Nossa parte é: chegar no horário, matar quantos leões puder no dia, driblar a falta de recursos (material, pessoas, equipamentos) e chegar “vivo” em casa.

Isso me fez lembrar uma lição que aprendi com meu amigo Layzer Melo que dizia “não importa quantos leões você mata por dia, mas sim quantos elefantes indianos você produz”. Infelizmente meu amigo tem razão (não estou dizendo que ele gosta ou apoia isto, mas sim que ele, assim como eu, sofre com isso), muitas empresas prestigiam os maquiadores, políticos, sofistas, enganadores em detrimento dos profissionais produtivos, que mais se preocupam em realizar o trabalho do que ficar contando vantagem e fazendo campanha pelos corredores.

Proponho então uma nova fórmula para o cálculo da produtividade do trabalhador:

equacao produtividade do trabalhador 3

Referências:

Claudia Rolli e Álvaro Fagundes: Um trabalhador americano produz como quatro brasileiros. Folha de São Paulo, 31/5/15.

Pedro Cavalcanti Ferreira: Por que a produtividade do trabalhador brasileiro é tão baixa? Folha de São Paulo, 25/01/2015.

Editorial: Gazeta do Povo: A produtividade do brasileiro

Ruth Costas: Entenda por que a produtividade no Brasil não cresce.

Nota Econômica: Industria brasileira perde competitividade há uma década. Informativo CNI, Ano 1, número 1, janeiro de 2015.